A imagem era um círculo sofrendo uma força centrífuga que
misturava as cores. Me vi colado a esse círculo em alta velocidade, meu corpo
parecia incrivelmente claro, quase translúcido. Me deixava levar como uma
boneca com braços, pernas e cabeça obedecendo ao movimento. Ao som do chocalho senti
subir uma energia vinda dos pés como um arrepio, uma corrente elétrica suave. A
velocidade só aumentava e as cores se misturaram completamente com raios, algo
como uma foto de máquina lomo. Era uma luz linda e em movimento!
A luz ficou ali brilhando não sei porquanto tempo, mas,
desacelerou e comecei a ver outras imagens. Parentes distantes que não vejo a
tempos, um primo em especial, uma rua do centro da cidade e a avenida paralela
que percorri talvez voando não sei ao certo. O que estava muito claro nesse
passeio era a perspectiva do asfalto, eu o via muito escuro e bem liso. Via
rua, vi os prédios era um dia nublado, muito parecido com o dia vivido.
O toque do tambor com o canto interrompeu o passeio e as
imagens sumiram. Optei por prestar atenção na minha respiração e usufruir da
incrível sensação de relaxamento. Minha cabeça esvaziou-se e eu continuei
respirando e ouvindo, respirando e ouvindo, respirando e ouvindo...até que veio
o chocalho de novo e ao invés de corrente elétrica veio a sensação de uma certa
leveza corporal. Parece que fiquei mais leve!
Ao final do trabalho retornei da experiência com os mesmos
questionamentos e desejos de antes, mas sem a raiva e a indignação. Me reconectei
comigo mesma e tive mais consciência dos desafios, dos desamores, abandonos,
lacunas e totalmente ciente de que são sentimentos e emoções muito minhas e
legítimas. Afinal me sinto composta de várias camadas onde há espaço para minha
humanidade que carrega afeto, compreensão e um tanto de inquietude e questionamento.
Pretendo percorrer todo esse asfalto em busca de uma cura sublime e definitiva.
Afinal, para todo mal, a cura!