quinta-feira, março 12, 2020

Carta


Goiânia, 11 de março de 2020.


Luciano,

Somos o que trazemos em nossa bagagem. Atuamos e pensamos de acordo com essa lente que é moldada pelas vivências, elaborações e dores. Dentro de mim habitam várias “Ninas”! A criança que não conheceu o pai e evitava esse assunto para não aborrecer a mãe e por isso fantasiava com vários pais e dava a eles nomes diferentes para coleguinhas ou professoras indiscretos que perguntavam por sua filiação. A adolescente tímida que cultivava amores platônicos e que aceitou namorar com um carinha insistente pelo simples fato dele ser alto e pela ideia de “ser de alguém”. Afinal todas as amigas eram namoradas do fulano e do ciclano. Eu também queria! Dos 13 aso 16 anos levei essa tarefa bem a sério e fui namorada companheira, paciente, resiliente e ao final do triênio me vi em um relacionamento abusivo onde fui manipulada pelo “carinha insistente” e o namoro acabou sem que eu percebesse o que de fato aconteceu. Passei a ser uma jovem aguerrida e atenta a qualquer um que tentasse explodir meu coração novamente, mas, como romântica incorrigível acabava me apaixonando pelos contatinhos (não chamávamos assim mas o sentido é o mesmo). Aos 30 conheci aquele que parecia ser meu porto seguro, braços fortes, calmo e presente. Em 3 anos de relacionamento jamais brigamos. Olha ae o segundo triênio! Formávamos um casal improvável, intelectualmente distantes, diferentes ao extremo, mas, ainda assim bons amigos foi um momento de calmaria única. Engravidei sem planejar na idade de cristo! Ganhei um presentão mas a gravidez foi muito dura e ao final fui abandonada pelo meu “porto seguro”. Ser abandonada recém parida é uma dor indivisível com uma recompensa final. Quando eu ouvi você dizer:  fiquei grávido! Foi absolutamente perturbador! A frase saiu de forma natural e imediatamente pensei: tudo bem se não for verdade mas só o fato de o ver se colocando no lugar da companheira grávida me deu uma pista de que você era diferente de muita coisa que eu já tinha conhecido.

Recentemente descobri que sou demissexual, mais uma dessas definições que estão na moda. Essa categorização fez muito sentido para mim porque explica que determinadas pessoas só se sentem atraídas sexualmente por alguém mediante conexão intelectual ou emocional. Sou dessas! E isso explica tantos tipos estranhos que desejei ao longo da vida pelo fato de admirá-los ou me sentir segura com eles. Sobre essa conexão intelectual, emocional e sexual poderia fazer um milhão de considerações a partir do referencial de 12 horas do “date inicial” que vivenciamos. Mas me reservo falar sobre minhas percepções. Fiquei fascinada com sua disponibilidade. Estar 3 horas num café acompanhando alguém que não tomava nada nem café e permanecer com ela por mais 8 horas sem comer ! Ir para um segundo encontro após esperar por uma hora, andar em círculos e encarar 2 horas de ônibus para chegar em casa. Tudo muito lindinho! Desaprendi a lidar com o simples. Depois de tanta bagagem não sei viver o simples prazer de estar. Aqui dentro tem uma força estranha que não controla a ansiedade e ao mesmo tempo deseja controlar tudo.

Volto novamente a minha bagagem. Carrego desde 2014 a pesada carga de um relacionamento abusivo. Abusivo em muitos níveis! Em 2017 suportei a última agressão e comecei a emergir de um pesadelo. Tirá-lo da minha vida foi fácil. Medida protetiva e boa vontade me afastaram dele. Difícil é tirá-lo da minha história! Difícil é ter que contar essa passagem da vida para qualquer pessoa que entra na minha vida desde 2017. Inclusive você. Difícil é suportar os constrangimentos e a super exposição. Difícil é ter medo de andar na rua sozinha e ter que escalar alguém para andar comigo. Vivi essa realidade por dois anos! Difícil é se sentir atraente de novo. Difícil é esquecer o e-mail onde ele xingou cada parte do meu corpo. Difícil é ver aquela mulher segura na cama, afeita a comunicação sexual de repente apagar luzes e evitar carícias mais intimas. Difícil é sentir culpa pelo comportamento Kamikaze e desejar voltar ao passado e ter mais cautela. Difícil é perceber que o comportamento intenso e entregue traz problemas mas ainda assim não conseguir evitar arriscar-se!  E pensar que lá no fundo, retirando toda a filosofia, psicologia, intelectualidade sou igual a protagonista de um “Um lugar chamado Notting Hill” que diz: sou apenas uma garota e gostaria de ser amada! O mais louco de tudo é que os grandes pensadores desse mundo se debruçam sobre as dores humanas e a primeira delas é não ser amado. Enfim, muita filosofia, arte, música e fotografia para suportar o que mais de humano vive em nós: o amor e seu avesso.

Toda essa reflexão intensa veio do pé na bunda que vc me deu! Eu ansiosa achei que horas de boa conversa, bom sexo e dois encontros já tinham me colocado de novo em contato com aquela Nina companheira, namoradinha sem compromisso, entregue a mimos e no torpor que a paixão oferece. E tal qual namoradinha pueril exigi atenção, fiz inferências e julgamentos para no momento seguinte pedir desculpas assumir o descontrole. Foi chiliquinho sim! Alternei sessões de raiva e choro com escolha de músicas para a playlist da recém inaugurada Bad. Sou de escorpião e aqui dentro não há gavetas! Misturei tudo e resolvi pensar sobre esse sentimento e vi que as “relações liquidas” que tanto critiquei são necessárias. Pra quê se jogar do trapézio no escuro e sem redes? Como permitir conexões sem que o desejo do futuro atrapalhe o presente? Jogos de amor? Por que não? Se a definição de jogo de amor é ir com calma e evitar desnudar-se de forma perigosa para alguém que acabou de conhecer me pergunto por que não? Eu sempre respondi não! Desdenhei daquilo que considerava frieza e superficialidade e a resisti tudo menos as tentações. Para mim só valia o tudo, o quente, o intenso. Nada de cautela ou águas mornas! Fiquei constrangida com o meu comportamento afoito e sem noção. Reconheci esses “modos” como uma velha valise que devo deixar em alguma parada por aí. Quero ter a oportunidade sentir de leve como os sagitarianos, vir para a vida como se vai a uma festa!

Lamento que depois de todo esse imbróglio a possibilidade de “dates” de 12 horas fiquem quase que impossibilitadas, ainda desejo entender os pilares da fotografia. Mas aceito que há desencontros nessa vida. Tudo bem! Não era para ser! Agradeço aquele olhar único cheio de ternura e desejo! Agradeço a companhia e as aulas sobre a cena cultural do Rio de Janeiro! Agradeço os elogios e sua elegância! Agradeço o tratamento carinhoso e atencioso! Agradeço os áudios com seu delicioso sotaque e as boas gargalhadas que demos! Agradeço a lição! Fico feliz porque me parece mesmo que você está mais amadurecido nessa coisa de se “relacionar”. Parabéns! Sorte para nós!